Aylan Kurdi como imagem-despertador da crise dos refugiados: o enquadramento da imprensa ibérica

Rafael Mangana

Resumo


No contexto da crise dos refugiados, o dia 2 de setembro de 2015 marca de forma inequívoca a atenção dada a esta questão por parte dos media um pouco por todo o mundo. O aparecimento de um cadáver de uma criança síria de três anos numa praia turca contribuiu para transformar o enquadramento desta crise, que passou a ter um rosto, um nome que se transformaram em ícone da mesma: Aylan Kurdi. Sem nos determos na comparação entre o antes e o depois deste acontecimento mediático, o intuito deste texto é, antes, analisar a forma como a imagem desta criança influenciou a cobertura mediática da crise dos refugiados nos momentos subsequentes. Serão apresentados, através de uma amostra de conveniência, quatro momentos específicos, significativos da forma como a imprensa ibérica procedeu ao enquadramento da crise dos refugiados, apoiando-se na imagem de Aylan Kurdi e naquilo que a mesma passou a representar. Este trabalho analisa momentos específicos das versões online de dois jornais classificados como de referência de Portugal e Espanha (Público e El País), num período fulcral da crise. Através da análise de discurso dos elementos jornalísticos recolhidos associada ao estudo dos efeitos de framing e de priming, pretende-se explorar a possibilidade de acrescentar mais um conceito aos que já existem no vasto campo das teorias dos efeitos dos media: o conceito de imagem-despertador, enquanto elemento que detona um conjunto de memórias e de conhecimentos latentes associados a um determinado tema, assunto ou protagonista.


Palavras-chave


framing; priming; imagem-despertador; crise dos refugiados; migração; representações mediáticas.

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