O triunfo da Acção: projectar a “reconquista cristã”

Maria do Carmo Piçarra

Resumo


A instrumentalização do cinema pelo Estado Novo foi feita pelo SPN/SNI e, embora não tenha sido imediata, teve grande impacto na produção cinematográfica da época. Além da produção documental e de actualidades filmadas de propaganda, houve investimento em ficção nacionalista e/ou de propaganda explícita do regime autoritário, que António Ferro relevou ao fazer o balanço da acção do secretariado com que projectou a “política do espírito” que arquitectou. Esta produção cinematográfica de propaganda foi apresentada através do Cinema do Povo, rebaptizado posteriormente como Cinema Ambulante do secretariado. Nesse contexto, qual a importância e de que modo é exemplar a produção, pelo SPN, de A Manifestação da Acção Católica em Braga? Este artigo apresenta uma panorâmica da produção estatal de propaganda para analisar o modo como Braga foi filmada, em meados da década de 30, pelo cinema de propaganda. Detalha, através da análise fílmica, como a festa da Acção Católica, aí celebrada quando A revolução de Maio estreou, internalizou o espírito da época, mimetizando, à escala do país e com as limitações impostas pela falta de investimento e meios cinematográficos, o modelo de ordem alemão, correspondendo a uma paramilitarização dos comportamentos dos crentes, incitados à “reconquista
cristã” pela Acção Católica.


Palavras-chave


cinema de propaganda; SPN/SNI; acção católica; Salazar Diniz; A revolução de Maio; António Ferro

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