O Estado Novo, a cunhagem da palavra ‘portugalidade’ e as tentativas da sua reabilitação na atualidade

Vitor Sousa

Resumo


A cunhagem da palavra ‘portugalidade’ ocorreu entre as décadas de 50 e 60 do século XX, sendo um produto do Estado Novo. Trata-se de um processo que foi sublinhado após a revogação, em 1951, do Ato Colonial, em que as colónias passaram a denominar-se províncias ultramarinas e em que foi disseminado o slogan “Portugal do Minho a Timor” destinado a combater os movimentos independentistas que lá emergiam, defendendo a pertença desses territórios a Portugal. Foi em 1947, com a publicação do opúsculo Em Defesa da Portugalidade, da autoria de Alfredo Pimenta que, pela primeira vez, alguém se debruçou de forma específica sobre a ‘portugalidade’, discorrendo sobre o seu signifi- cado e tipificando o conceito. Após um hiato na sua utilização, na sequência da revolução do 25 de abril, em que se verificou um distanciamento em relação a assuntos que eram característicos do Estado Novo, o termo vai sendo reintroduzido no léxico, não fugindo no entanto ao ideário luso-tropicalista em que foi forjado (Ferronha, 1969), provocando vários equívocos. 


Palavras-chave


Alfredo Pimenta; Estado Novo; ‘portugalidade’; luso-tropicalismo; identidade nacional

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