A construção social da visibilidade

Adriano Duarte Rodrigues

Resumo


FORMULEI, há cerca de trinta anos, uma proposta que tem diretamente a ver com o tema deste colóquio (Rodrigues 2001: 137-196). Entendia então que os media constituem um campo próprio e asseguram a visibilidade dos demais campos sociais, no quadro da experiência fragmen- tada moderna. Considerava que o campo dos media contribui para a mobilização do conjunto da sociedade por parte cada um dos outros campos, tendo em vista a inculcação, a preservação, o fortalecimento da sua ordem de valores própria e, no caso de essa ordem ter sido enfraquecida ou de algum modo posta em risco, o seu restabelecimento. Dava como exemplos de valores constitutivos de campos sociais a vida, a salvação, a defesa do território, a justiça, o poder, o saber. Falava de ordem de valores, porque em cada um dos campos assistimos à instituição de uma hierarquia de posições em função da maior ou menor proximidade com a situação limite em que está em jogo a existência do valor próprio desse campo.

Já me acusaram de não ter referido na minha proposta a teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu. A razão desta ausência reside no facto de eu utilizar o termo campo num sentido relativamente diferente. O termo campo na minha proposta tem um sentido análogo ao que tem na física, enquanto resultado ou efeito da relação criada pela tensão entre dois polos opostos. Parecia-me, por isso, um conceito adequado para sublinhar a natureza tensional que caracteriza a relação que se estabelece, tanto entre os componentes de cada campo, como dos diferentes campos entre si.

A manifestação desta natureza tensional da noção de campo social é particularmente clara, quando temos em conta a distinção que eu fazia na altura entre os seus dois regimes de funcionamento, entre o regime lento e o regime acelerado. Procurava, com esta distinção, dar conta de situações historicamente diferentes. Enquanto o regime acelerado de um campo corresponderia ao funcionamento que podemos observar por ocasião da ocorrência histórica de situações de crise da sua ordem específica de valores, o regime lento de funcionamento de um campo corresponderia ao que observamos fora desses momentos críticos. No primeiro caso, podemos observar a monopolização do campo dos media por parte do campo que tem por função a preservação da ordem de 

valores que se encontra em crise, aumentando nesse caso a visibilidade desse campo. No segundo caso, quando os valores de um campo são assegurados pelo seu funcionamento regular habitual, assistimos a uma espécie de gestão que o campo dos media faz do equilíbrio, sempre instável, dos níveis de visibilidade relativa que tem como função assegurar aos diferentes campos sociais.

Considerava então importante esta distinção. Por um lado, ela permite mostrar o contributo fundamental do campo dos media para a visibilidade dos diferentes campos sociais, a ponto de podermos considerar o campo dos media como o campo da visibilidade por excelência dos outros campos sociais. Por outro lado, ela dá conta da natureza problemática dos processos de negociação permanente que o campo dos media tem que estabelecer, de modo, não só a assegurar a visibilidade relativa dos outros campos, mas também a preservar a sua própria autonomia enquanto campo social. Assim, nos momentos em que um determinado valor corre o risco de ser violado ou posto em causa, o campo social que tem como objetivo a salvaguarda deste valor monopoliza em exclusivo o campo dos media para tornar visível o seu funcionamento, tendo em vista a mobilização dos outros campos sociais em torno da sua ordem de valores. Fora desses momentos, o campo dos media tende a compor com cada um dos outros campos a visibilidade relativa da ordem de valores de cada um, numa relação que podemos considerar de equilíbrio instável. Assim, por exemplo, por ocasião da ocorrência de uma epidemia ou de uma catástrofe natural, como, por exemplo, um terramoto ou um tsunami, assistimos a uma apropriação do campo dos media por parte do campo médico com vista a salvaguardar o valor da vida, tal como, por ocasião da invasão externa, é o campo militar que se apropria do campo dos media para mobilizar o conjunto dos outros campos em torno da preservação do valor da integridade nacional, ou, por ocasião de uma revolução, o campo dos media é apropriado por parte do campo político com vista à mobilização do conjunto dos outros campos em torno da preservação do valor do poder.

Gostaria agora de chamar a atenção para as principais questões a que o campo dos media confere particular visibilidade, nos seus momentos de funcionamento lento, nos momentos em que os valores dos outros campos não estão propriamente em crise. Nesses momentos, é sobretudo às questões fraturantes que o campo dos media confere visibilidade. Dou o nome de fraturantes às questões que, por um lado, se colocam em termos que categorizam referentes para os quais é impossível de determinar fronteiras precisas delimitadoras das categorias com que essas questões são referidas e que, por outro lado, põem em jogo valores que não são da competência exclusiva de nenhum campo social específico. É o caso, por exemplo, das questões suscitadas pela prática relacionadas com o aborto, em que está em jogo a impossibilidade de determinar uma fronteira precisa delimitadora da categoria da vida, por práticas relacionadas com a sexualidade, em que está em causa a impossibilidade de determinar de maneira precisa a fronteira entre as categorias do masculino e do feminino, ou pelas práticas de eutanásia, em que está em jogo a impossibilidade de determinar de maneira precisa a demarcação da fronteira entre as categorias da vida e da morte. É sobretudo acerca de questões desta natureza que o campo dos media constitui o ambiente em que os diferentes campos se encontram e interagem, tendo em vista o confronto das diferentes categorizações propostas por cada um dos campos, assim como a luta de cada um pela apropriação da definição e da gestão dos valores que estas questões põem em causa.

Não vou evidentemente explicitar aqui os diferentes aspetos da minha proposta, porque são amplamente conhecidos pelos que têm seguido o meu percurso. Sinto, no entanto, necessidade 

de fazer algumas reformulações, não só por uma razão de oportunidade prática, mas também por razões de ordem teórica.

A oportunidade prática tem a ver com o facto de este momento me parecer particularmente adequado para clarificar aspetos que não costumam ser bem entendidos. As razões teóricas decorrem do facto de ser obrigado hoje a tirar algumas consequências da revisão a que tenho vindo a proceder, desde os anos 90, tanto da noção de comunicação, a partir da pragmática, como da noção de campo dos media, a partir da antropologia. Vou começar por esclarecer estas duas noções, para depois tentar mostrar as suas consequências, tanto para o entendimento da minha proposta, como para a abordagem da questão da visibilidade que é o tema que nos ocupa neste colóquio. Se as minhas propostas se situam hoje claramente na contramão de muitas das concepções que costu- mam ser aceites sem discussão na nossa área de estudos, diria, como Galileu em 1632, falando da rotação da Terra em volta do Sol: “Eppur si muove”. 


Palavras-chave


rethinking humanities

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