Medicina, biopolítica e pan-ótico: (re)visitando Foucault em tempos de pandemia de COVID-19

Luísa Carvalho Carreira

Resumo


Este artigo procura refletir acerca dos conceitos de medicina, biopolítica e pan-ótico, presentes na obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), à luz do contexto pandémico de COVID-19. O presente artigo tem igualmente como objetivo proporcionar uma reflexão sobre os impactos e consequências que as medidas adotadas para combater esta pandemia têm tido nas sociedades, bem como acerca da possibilidade e das implicações na vida e nas dinâmicas sociais de algumas dessas medidas continuarem a vigorar num contexto pós-pandémico. Para tal, encontra-se dividido em três partes. A primeira parte aborda a passagem da medicina das espécies ou clássica, baseada na História Natural, para a medicina moderna ou clínica, baseada na Biologia, bem como o que esteve na origem dessa mudança: uma medicina das epidemias. A segunda parte introduz os conceitos de biopolítica e pan-ótico, tentando demonstrar que medidas semelhantes às que têm sido tomadas no atual contexto da pandemia de COVID-19 foram igualmente tomadas pela medicina moderna anteriormente. A terceira parte introduz uma reflexão acerca dos impactos sociais da pandemia, partindo da consideração de que a saúde e a doença são construções sociais, transformadas pela ação dos indivíduos e pelas suas vivências em sociedade. 


Palavras-chave


construções sociais; doença; realidade; saúde; COVID-19

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