A semiótica da cozinha. Intermediações entre a produção e a recepção da obra arquitectónica

João Almeida e Silva

Resumo


Hans Robert Jauss, em Para uma estética da recepção (Jauss, 1978), considera a obra de arte como um sistema definido pela tríade produção, comunicação e recepção. Tríade que, tecendo uma relação dialética entre produtor, obra e receptor, transporta o acto de fruição da obra para duas áreas: a implicada pela própria obra e a interpreta- da pelo utilizador (e seu contexto). A partir do momento em que a obra é reinterpretada e reproduzida (Benjamin, 1936) – e considerando que a arquitectura sempre se relacionou com os meios de comunicação (Carpo, 2001) –, poderemos atribuir à obra, agora reprodução (Colomina, 1988), um papel importante na mediação (por vezes interferência) entre o autor (produtor) e o utilizador (receptor), pela via da manipulação da obra em relação ao seu propósito original.

Dos diversos modos de reprodução estudaremos aqueles que se relacionam com a obra arquitectónica, especificamente os anúncios divulgados nos periódicos especializados em arquitectura, por constituírem um mecanismo decisivo de difusão e criação do gosto. Partindo de Greimas e Courtés (1979), traçaremos um panorama dos publicados nas revistas Arquitectura e Arquitectura Portuguesa, entre os anos de 1946 e 1988, e tomaremos a cozinha (especificamente os seus componentes, tipos e protagonistas) como exemplo. Efectuaremos uma análise semiótica das imagens de domes cidade que as constituem, referindo os modelos propostos e o estilo de vida subjacente. Por um lado, demonstraremos que as cozinhas “expostas” pelos anúncios obedecem a uma lógica de criação de desejo no observador-utilizador (aqui também consumidor) através do recurso sistemático a uma narrativa ancorada na promessa de uma “felicidade inadiável”; por outro, verificaremos que, por essa razão, assumem um papel singular na divulgação de modelos arquitectónicos, sobretudo ao nível da interpretação do gosto e das aspirações de toda uma população. Comprovaremos, desta forma, que a publicidade é um mecanismo que actua de forma decisiva na intermediação entre a produção (o autor) e a recepção (o observador-utilizador). 


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